segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O SHOW QUE COMEÇOU MAL E NÃO TERMINOU

Aroldo Pedrosa: E as notas dissonantes se integraram ao som dos imbecis
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Parafraseando “1968 – o ano que não terminou”, do Zuenir Ventura, na última quinta-feira – 27 de agosto de 2009 –, mesmo com o alinhamento do Sol, Lua e Terra à meia-noite, as forças gravitacionais do Universo não conspiraram a favor do show-manifesto Tropicália na Linha do Equador. Seria praga do bispo que "não rasga dinheiro, não" Edir Macedo? Do presidente "eu não peço desculpa da patifaria dos atos secretos" José Sarney e seus discípulos? Ou seja, do “Brasil da pilantragem do século 21”, como anunciávamos no convite? De qualquer forma foi frustrante a interrupção de energia elétrica – que durou mais de uma hora – depois de apresentar (meio fora do tom) a terceira música do show, “Como Dois e Dois”, composta por Caetano Veloso no exílio londrino. “Como dois e dois são cinco” – diga-se de passagem – é uma frase pensada pelo russo Tolstói e digerida antropofagicamente por Caetano, numa gozação tropicalista pra falar da situação do Brasil daquele regime arbitrário e truculento dos anos 60. Parece que os fantasmas ditatoriais emergiram do mundo das sombras para atrapalhar a nossa festa tropical-socialista na noite de quinta-feira, que, horas antes, já andava atropelada nos preparativos – os ensaios foram mínimos e sempre com a ausência inesperada de um ou outro músico. Mas como compromisso é compromisso, e teríamos que fazer valer o que estava escrito, fomos assim mesmo ao SESC Centro apresentar o show que, infelizmente, começou mal e não teve fim pela falta, sobretudo, do fornecimento de energia elétrica.
Há males, porém, que vêm pra bem. Estamos agora reavaliando os erros, as tensões e entraves daquele princípio de espetáculo complicado, para sacudir a poeira e – creia – dá a volta por cima. E a crítica que não toque na poesia!
Tempo haverá agora pra isso, de buscar nova pauta no SESC Centro e apresentar na íntegra o show interrompido nos primeiros acordes e versos de “Fera Ferida”: Acabei com tudo...
Apesar de tudo, o público presente me emocionou muitíssimo ao completar na escuridão – e numa só voz – a bela canção romântica de Roberto e Erasmo Carlos.
Tropicália é isso aí. Muito obrigado, platéia! E aguarde para muito breve o nosso retorno cantando desta vez com vocês a canção...
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FERA FERIDA
Roberto Carlos / Erasmo Carlos
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Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída
Mas saí ferido
Sufocando o meu gemido
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido
Animal arisco
Domesticado esquece o risco
Me deixei enganar
E até me levar por você
Eu sei
Quanta tristeza eu tive
Mas mesmo assim se vive
Morrendo aos poucos por amor
Eu sei
Que o coração perdoa
Mas não esquece à toa
E eu não esqueci
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Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

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Eu andei demais
Não olhei pra trás
Era solto em meus passos
Bicho livre sem rumo e sem laços
Me senti sozinho
Tropeçando em meu caminho
À procura de abrigo
Uma ajuda, um lugar, um amigo
Animal ferido
Por instinto decidido
Os meus rastros desfiz
Tentativa infeliz de esquecer
Eu sei
Que flores existiram
Mas que não resistiram
A vendavais constantes
Eu sei
Que as cicatrizes falam
Mas as palavras calam
O que eu não esqueci

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Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

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Esta canção foi gravada por Caetano no disco solo de 1988.

I SARAU DO LARGO DOS INOCENTES DE 2009

Maria Elli no I Sarau do Largo dos Inocentes do fim de semana
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A Confraria Tucuju realizou na sexta-feira (28) o I Sarau do Largo dos Inocentes de 2009, com mostra das manifestações artístico-culturais do Amapá: exposição e comercialização de artes plásticas, artesanato, CDs, DVDs e obras literárias de artistas e escritores amapaenses, varal de poesias, folclore e gastronomia regional.
O Sarau fez homenagem ao poeta Alcy Araújo, com vários poemas lidos por Patrícia Andrade e as filhas do poeta, Alcilene e Alcinéa Cavalcante. As atrações musicais foram as seguintes:
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Maria Elli e Rafael Boaventura abriram o Sarau
Maria Elli, cantora e compositora amapaense com mais de 18 anos de carreira, que participou de diversos festivais interpretando canções de compositores locais, premiada em 1º lugar no III SESCANTAMAPÁ e como melhor intérprete em dois festivais: III Festival Amapaense da Canção (FEMAC) e II Festival de Música do Servidor Público (FESTSERV). Participou também da XXXI Mostra de Música Cidade Canção (FEMUCIC/Maringá-PR), I Bienal Internacional de Música de Belém do Pará, II Mostra de Música SESCANTAMAPÁ e do Festival de Artes da Escola Meta (FAM). Sua bela voz está registrada nos CDs “Canto de Casa II”, produzido pela Associação de Músicos e Compositores do Amapá/AMCAP e “Parceria”, dos compositores André Luiz Barreto e Cássio Pontes. Maria Elli é Publicitária, atuante na área de comunicação elaborando jingles publicitários, além de prestar assessoria de imprensa. Atualmente ocupa o cargo de Diretora Social da Associação de Músicos e Compositores do Amapá/Amcap.
Rafael Boaventura é músico, cantor e compositor com 12 anos de atuação, apresentando trabalho de voz e violão e como vocalista e instrumentista de bandas em bares e casas de shows. Participou de diversos festivais, interpretando composições de sua autoria, sendo premiado com o 2º lugar no II Festival Jovem da Canção (FEJOCA), com apenas 15 anos, além de outras importantes participações como: II Festival de Música do Nae (FEMUNAE), Festival de Artes da Meta (FAM), II Mostra de Música SESCANTAMAPÁ, XXXI Mostra de Música Cidade Canção (FEMUCIC/Maringá-PR) e recitais da escola de Música Walkíria Lima, enquanto aluno do curso de Violão Erudito daquela instituição de ensino Musical.
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Banda Kbana Texana fechou o I Sarau do Largo
A banda Kbana Texana é uma formação recente, mas com músicos consagrados da noite amapaense. Um dos líderes da banda Casanova, Wildson (Bolachinha), no baixo e voz, Jota Lee na guitarra e voz, Magno nos teclados e vocais, Valério de Luca na bateria e Jormyr no teclado e voz. O quinteto faz um show resgatando a música popular dançante dos anos 60, 70 e 80, incluindo Jovem Guarda, Rock Nacional, cantores como Tim Maia e bandas como Roupa Nova e A Cor do Som.
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A galeria de fotos do fim de semana a seguir.

FIM DE SEMANA NA TERRA DO MARABAIXO

Joãosinho Gomes e Val Milhomem no Canto de Casa (SESC Centro) sexta-feira
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Amadeu Cavalcante e deputado Evandro Milhomem (PCdoB/AP) no Canto de Casa
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Rafael Boaventura, acompanhando a cantora e mãe Elli: hereditariedade musical
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O líder da banda Kbana Texana, Bolachinha, no Largo dos Inocentes
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Os músicos da banda Kbana Texana
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Wildson (Bolachinha) com amigos, depois da boa performance

terça-feira, 25 de agosto de 2009

É PROIBIDO PROIBIR - 1968/1969


Ao longo desses 40 anos de transformações, entre elas o retorno da democracia brasileira, vários livros foram publicados, e, particularmente, pelo menos quatro entre os que li carrego comigo como fonte de consulta, porque narram com grandeza e precisão detalhes dessa – como diria o compositor Chico Buarque de Holanda – página infeliz da nossa história.
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Aroldo Pedrosa
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Desde o ano de 2007 – há pouco mais de dois anos – que o leitor de Vanguarda vem acompanhando em nossas páginas, identificadas pelo rótulo “TROPICÁLIA 40 ANOS – 1967/1968”, reportagens especiais acompanhadas de depoimentos (Jorge Mautner e Gilberto Gil estiveram na edição anterior) sobre o mais expressivo movimento de renovação cultural – o tropicalismo – ocorrido no Brasil nas últimas quatro décadas. E 2008 foi o ano em que a imprensa brasileira mais fez emergir o episódio da história que culminou com a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, pelo regime militar que governava o Brasil na época. O AI-5, como assim ficou conhecido, foi decretado pelo presidente Costa e Silva como pretexto para cassar o deputado federal Márcio Moreira Alves, que, às vésperas do dia nacional da independência do Brasil, subira à tribuna da Câmara para pedir as mulheres desses militares que fizessem greve de sexo como protesto ao regime de exceção vigente no país, que a tudo – ou quase tudo – proibia. Na mais sinistra noite de sexta-feira 13 (imagina quantos milicos brocharam naquela noite com o eco do discurso do deputado subversivo na cabeça), sobretudo com a rejeição da Câmara ao pedido de licença para o STF processar Moreira Alves, os militares – com as prerrogativas do AI-5 – indignados subiram nas tamancas, numa pressão ao presidente da República que, sem saída, fechou o Congresso Nacional e, entre outros absurdos, prendeu, dias depois, os líderes tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, que, com suas idéias de vanguarda e comportamentos, vinham incomodando os militares conservadores na caserna.
Ao longo desses 40 anos de transformações, entre elas o retorno da democracia brasileira, vários livros foram publicados, e, particularmente, pelo menos quatro entre os que li carrego comigo como fonte de consulta, porque narram com grandeza e precisão detalhes dessa – como diria o compositor Chico Buarque de Holanda – página infeliz da nossa história.
Em “1968 – o ano que não terminou”, o jornalista e escritor Zuenir Ventura dedica um capítulo inteiro do livro para descrever e analisar um dos episódios mais controvertidos da cultura brasileira: a apresentação da canção É proibido proibir, por Caetano Veloso, no III Festival Internacional da Canção-FIC promovido pela Rede Globo.
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O capítulo, do livro de Zuenir Ventura, está postado abaixo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

1968 - O ANO QUE NÃO TERMINOU


QUE JUVENTUDE É ESSA!
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Zuenir Ventura
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Na última semana de setembro, o III Festival Internacional da Canção transformou a intolerância em espetáculo e a exibiu para todo o país – ao vivo e ao som de vaias, mais do que de música. Na noite de 28, no teatro do Tuca, em São Paulo, algumas dúzias de ovos, tomates e bolas de papel – acompanhadas por uma interminável vaia – iam proibir que Caetano Veloso cantasse É proibido proibir, mas em compensação iam provocá-lo a fazer o mais brilhante discurso de sua vida.
Era a última noite da fase nacional, que classificaria seis músicas para representar o Brasil nas semifinais e finais do Maracanãzinho. Caetano fizera a música por insistência do seu empresário. Lendo uma reportagem na revista Manchete, Guilherme Araújo viu o graffiti e teve a idéia:
- Essa frase é linda, Caetano. Faz uma música usando-a como refrão.
Preguiçoso, Caetano demorou a fazê-la, mas Guilherme não desistiu. Um dia, a música saiu.
“Achei meio boba, mas bonitinha”, confessa o autor. “Todo mundo, na hora, achou bonita. No dia seguinte, eu já achava péssima.”
Embora só gostasse do ritmo e de uma parte da letra – “Eu digo sim, eu digo não ao não” –, quando veio o festival da Globo ele resolveu inscrevê-la, e convidou para acompanhá-lo o conjunto Os Mutantes, que tinha aquela garota sardenta, muito moleca, filha de americanos, Rita Lee Jones.
Caetano ainda se lembra de que estava vestido de plástico verde e negro, “com uns colares de correntes, tomadas, coisas quebradas, pedaços de lâmpadas, uma coisa muito estranha”. Quando começou a cantar, Gil e Gal estavam na platéia e sua mulher, Dedé, nos bastidores. De repente, a uma ordem em inglês, irrompeu no palco a surpresa que Caetano mantivera em absoluto segredo e que descreve assim: “Pulando e dando gritos, um rapaz louro de dois metros de altura, esquisito, muito louco, roupas mais estranhas do que as minhas”.
Ninguém sabia quem era, mas a entrada intempestiva desse americano do Texas chamado Johnny Dandurand levou a platéia do Tuca a um transe histérico. Primeiro, foram os apupos e os xingamentos, em seguida as bolinhas de papel e, logo depois, os ovos e tomates. Caetano ainda tentou cantar, ma era impossível. Tinhoso, ele só desistiu quando resolveu realizar um dos dois mais escandalosos happenings daqueles tempos – o outro fora de Sérgio Ricardo no ano anterior, ao quebrar o violão e atirá-lo em pedaços sobre uma platéia parecida.
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- Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? -
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gritou Caetano mais alto do que a gritaria. Era o começo do seu discurso ao mesmo tempo didático e impiedoso.
Caetano pretendia ler um poema de Fernando Pessoa e dar um grito de apoio a Cacilda Becker, que sofria pressões da censura para rescindir seu contrato na televisão. Esses dois nomes e mais o do compositor Chico de Assis, membro do júri, vão aparecer em seguida sem que a platéia entendesse porque, se é que aquela gente estava a fim de entender alguma coisa.
Exasperada, a platéia tentava abafar, com gritos, o inesperado comício.
Caetano resolvera despejar naquela platéia ululante todas as suas mágoas, inclusive o fato de terem vaiado, no festival do ano anterior, Alegria, alegria, por considerá-la imitação de música americana.
As vaias aumentaram. Num pulo, Gil já estava no palco abraçado ao amigo e revidando com deboche as agressões. Encarava o público, ria, de vez em quando pegava um tomate, dava uma mordida e devolvia à platéia. Rita fazia piadas: “Aí, Caetano Meloso”.
Caetano conseguia transformar a sua fúria numa torrente de afirmações provocadoras, cortantes. De vez em quando ele cantava, ou gritava para a platéia de censores: “É proibido proibir!”.
O discurso chegava ao final, e ia sobrar para o júri.
A cantora Nara Leão fazia parte do júri e seu marido então, Cacá Diegues, provavelmente não se inspirou no espetáculo para lançar a categoria Patrulhas Ideológicas, com a qual, uma década depois, desmoralizou o entulho autoritário de esquerda, abrindo caminho para uma perestroika à nossa maneira e avant-la-lettre. Mas não há dúvida de que aquela foi a noite de glória das patrulhas ideológicas.
Curiosamente, a segunda lição àqueles jovens de esquerda, “pra frente”, viria de Nelson Rodrigues, o reacionário, em uma crônica clássica:
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“A vaia selvagem com que o receberam já me deu uma certa náusea de ser brasileiro. Dirão os idiotas da objetividade que ele estava de salto alto, plumas, peruca, batom etc. Ele era um artista. De peruca ou não, era um artista. De plumas, mas artista. (...) Ele era um momento da consciência brasileira. E vimos como a implacável lucidez acuou e bateu a jovem obtusidade”.
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Ao voltar para os bastidores, Caetano foi recebido por Dedé, que não chegara a ouvir o discurso do marido. O mais indignado agora era Gil: “Eles estão embotados pela burrice que uma coisa chamada Partido Comunista resolveu pôr na cabeça deles”.
Depois que Dedé retirou os colares do pescoço do marido, deixando apenas um “pra dar sorte”, Caetano saiu do teatro protegido pela polícia e com a disposição de não mais participar de festivais. Inconformado com a desclassificação de Gil, ele retirou a sua da competição, apesar da ótima classificação que obtivera.
Uma semana depois, sem Caetano e Gil, o III Festival da Canção escolheria o vencedor brasileiro que iria concorrer com os estrangeiros. Paralelamente ao evento, realizava-se na boate Sucata, de Ricardo Amaral, o que Caetano ainda chama de “festival marginal ao festival que seguia”: um espetáculo tropicalista. Como parte dos elementos visuais de cena, destacava-se a bandeira de Hélio Oiticica: “Seja marginal, seja herói”. O show, a bandeira de Hélio, alguns acordes que Os Mutantes dedilhavam ao violão e que os censores confundiram com o hino nacional, tudo isso, mas principalmente a campanha de delação de um certo Randal Juliano, que todo dia pedia pela rádio e TV a prisão de Caetano, levaram à proibição do show por um juiz, a ridículas acareações entre Amaral e Caetano, e a prisão do compositor, logo depois do AI-5.
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Abaixo, o discurso histórico (na íntegra) de Caetano Veloso

VOCÊS NÃO ESTÃO ENTENDENDO NADA!


O DISCURSO DE CAETANO
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"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?
Vocês tem coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado; são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!
Hoje não tem Fernando Pessoa! Eu hoje vim dizer aqui que quem teve a coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa, que juventude é essa?
Vocês jamais conterão ninguém! Vocês são iguais sabe a quem? São iguais sabe a quem? – tem som no microfone? – aqueles que foram à Roda Viva e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido em dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês.
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira! O Maranhão apresentou esse ano uma música com arranjo de Charleston, sabe o que foi? Foi a Gabriela do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana. Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso. Eu quero dizer ao júri: me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso! Gilberto Gil!...
Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com isso tudo de uma vez! Nós só entramos em festival pra isso, não é, Gil? Não fingimos, não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês? E vocês?
Se vocês, se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! Junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês...
O júri é muito simpático, mas é incompetente. Deus está solto!”
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Nesse momento Caetano volta a cantar É proibido proibir propositalmente desafinado, finalizando o discurso assim:
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"Fora do tom, sem melodia. Como é júri? Não acertaram qualificar a melodia de Gilberto Gil? Ficaram por fora. Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver.
Chega!"

NOTA DE REPÚDIO

A direção da Rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) é solidário aos companheiros dos STRs e as Associações Comunitárias. Nos colocamos à disposição dos senhores (as), através do nosso escritório Nacional em Brasília.

Rubens Gomes - Presidente da Rede GTA

NOTA DE REPÚDIO
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Senhores (as),
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Através deste documento, vimos repudiar uma operação conjunta entre IBAMA (Amapá), Polícia Ambiental do Amapá e Polícia Federal, realizadano município de Gurupá, mais precisamente no Rio Moju, nos dias 16 e 17 de agosto de 2009.
A operação, segundo os seus coordenadores, baseados no Estado do Amapá, tinha como objetivo “fiscalizar a extração de madeira e seu processamento nas pequenas serrarias familiares”. Porém, os procedimentos foram muito além disso: policiais invadiram residências,agredindo verbalmente e ameaçando com armas os moradores; entravam nas dependências das residências – quartos inclusive - sem levar em consideração a presença de crianças, senhoras e pessoas idosas, mexiam nos bens dos moradores (freezer, fogões, etc); retiraram e prenderam peças de motores e das serrarias.
É importante que todas as pessoas possam estar fazendo uma reflexãoprofunda, sobre as ações ambientais praticadas pelos amazônidas, os quais visam a melhoria da qualidade de vida de forma sustentável, o que prova na prática ao longo dos séculos. Diferente daqueles que pensam em um progresso esmagador com grande destruição criminosa, oprogresso imediato.
Não queremos questionar o fato de fiscalizar ou não, mas sim o procedimento e os critérios de seleção para fazer a fiscalização.
O município de Gurupá tem seu território composto 70% por áreas de várzea, tendo o extrativismo – florestal e aquático - como base da economia da população que ali reside. O mais interessante nesse contexto é que o município, mesmo sendo historicamente extrativistavem aumentando sua cobertura florestal, na contramão de todos os outros municípios vizinhos e de outras regiões.
Deste modo, torna-se necessário que se implante em Gurupá, bem como em toda a região, políticas ambientais que venham apoiar as ações dos extrativistas que sempre se preocupam com a perpetuação dos recursos naturais e não deslanchar operações policiais que só trazem medo e empurram cada vez mais os produtores para a clandestinidade,principalmente considerando os métodos violentos aplicados pelaschamadas “autoridades”.
O Movimento Social organizado de Gurupá, através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e das Associações de Trabalhadores e Trabalhadoras, vem fazendo denúncias de extrações madeireiras de forma desordenada e ameaçadora nas fronteiras de nosso município, inclusiveem terras de Remanescentes de Quilombos e em Reserva Extrativista, feitas por madeireiros de outros municípios, que utilizam máquinas com grande poder de destruição florestal.
No entanto, sobre essas denúncias, nenhuma providência tem sido tomada, o que nos remete concluir que as tais operações policiais visam mesmo humilhar os pequenos que dependem diretamente dos recursos naturais para sobreviver e que não tem meios de impedir que essas operações cheguem até suas comunidades.
É importante que as autoridades com poder de decisão, tomemconhecimento de tais práticas para que possam se empenhar no sentido de que tais “operações” não ultrapassem os limites da lei e nem tenham abuso de autoridade como foi testemunhado em Gurupá. Pois, fatos como esse vem envergonhar nosso país, que historicamente tem lutado incansavelmente por uma democracia mais abrangente e paratodos.
Finalmente, senhores e senhoras, queremos de forma firme apoiar as ações fiscalizadoras, mas acima de tudo queremos que as mesmas sejam feitas com a maior lisura, transparência e honestidade possíveis, sem colocar sob suspeita a reputação, tanto dos ribeirinhos quanto dosresponsáveis pela ordem e a legalidade deste país.
Que se respeite os lares, as intimidades dos moradores e que se poupe as crianças e idosos desses desmandos.

ASSINAM O DOCUMENTO:

SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS DE GURUPÁ

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO SOCIOAMBIENTAL DE GURUPÁ

COOPERATIVA MISTA AGROEXTRATIVISTA DE GURUPÁ

ASSOCIAÇÃO DOS PEQUENOS PRODUTORES DO SETOR MOJU

ASSOCIAÇÃO DOS PEQUENOS PRODUTORES DO BACÁ E ESTRADA

ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES AGROEXTRATIVISTAS DA ILHA DE SÃO SALVADOR

ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES AGROEXTRATIVISTAS DA ILHA DAS CINZAS

ASSOCIAÇÃO DAS COMUNIDADES REMANESCENTES DE QUILOMBOS DE GURUPÁ

A MÚSICA DO PARÁ E AMAPÁ NO IV ALDEIA


VICENTE Moura e Trio – Helder Melo (baixo), Guido (violão aço) e Diego Gomes (percussão) – é um projeto voltado a apresentar composições próprias do artista paraense, de outros compositores conterrâneos e também de compositores do Amapá, como Zé Miguel, Joãozinho Gomes, Enrico Di Miceli, Beto Oscar, Ana Martel e Hélder Brandão, entre outros. Do Pará, Pedrinho Calado, Nilson Chaves, Walter Freitas, Vital Farias, Maria Lídia e Floriano Saraiva, além, é claro, de suas próprias composições.
O show foi apresentado sábado (22), no SESC Centro, com um som da melhor qualidade, e contou ainda com a presença dos compositores paraenses Floriano Saraiva e Déo Clay, ambos em Macapá participando do II FEMINSAP - Festival de Música Instrumental do Amapá, que se encerra neste domingo.
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Destaque
Grande show com Vicente Moura fazendo o violão de náilon e interpretando com muita clareza as também ótimas canções selecionadas. Das canções de compositores do meio do mundo, destaque para o marabaixo “Mal de amor” (Val Milhomem/ Joãozinho Gomes).

ESTÁTUAS VIVAS PIETÁ

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O grupo é formado por nove integrantes que se conheceram através das oficinas de teatro da Escola de Artes Cândido Portinari. O foco do grupo é contribuir com a difusão da Cultura do Amapá, levando a arte de representar a um público diversificado e buscando conscientizá-lo de forma alegre e espontânea sobre a preservação ambiental e a prática dos valores éticos e de cidadania.
O grupo apresentou o espetáculo “Estátuas Vivas Pietá” na sexta-feira (21), pelo IV ALDEIA SESC – Povos da floresta, no Teatro das Bacabeiras.
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Ficha técnica
Direção: Mary Paes
Assistente de direção: Patrick dos Anjos
Figurino: Paulo Lima
Elenco: Débora Bararuá, Paulo Lima, Cris Ferreira
Sonoplastia: Viviane Gualberto
Trilha Sonora: Música clássica e religiosa
Maquiagem: Cris Ferreira e Débora Bararuá
Produção: Conjunta
Texto: Cris Ferreira

sábado, 22 de agosto de 2009

FIM DE SEMANA NA TERRA DO MARABAIXO

Rosa branca açucena ô-lê-rê/ Case com a moça morena ô-lá-rá
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A compositora/cantora Rebeca, no clic da Vanguarda
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A escritora Lulih Rojanski e o músico paraense Delcley Machado
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O músico e compositor Finéias - mentor intelectual do FEMINSAP
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Cara de palhaço...
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...e pinta de palhaço no cortejo de abertura do IV ALDEIA
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II FEMINSAP - Festival de Música Instrumental do Amapá
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Hayam e Lulih - mulheres tropicalistas no Norte das Águas
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Músicos daqui e de lá se encontram feito o grande rio com o mar
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Andréia servindo simpatia...
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...ao som do ótimo instrumental da trupe carioca/marajoara do FEMINSAP
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Lula Jerônimo no calçadão da Jovino Dinoá: Viva a MPB!
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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

ABERTURA DO IV ALDEIA SESC


Começa hoje o IV ALDEIA SESC - Povos da floresta, com cortejo de abertura saindo do Parque do Forte às 17h. Todos os artistas classificados no projeto estão convidados. NAVEGANDO NA VANGUARDA, claro, vai estar presente, até porque tem o show-manifesto TROPICÁLIA NA LINHA DO EQUADOR, a ser realizado dia 27, no SESC Centro. Vamos falar de todos eles aqui, mas, especificamente sobre o show-manifesto da Tropicália, começamos a falar dele, pra valer, a partir desta segunda-feira (24).

COISAS DE TROPICÁLIA NA BEIRA-RIO


“PARANGOLATAS” VIRA CASO DE POLÍCIA
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O ator prenambucano Edson Barrus esteve em Macapá, participando do evento de arte rEs’quiNÓSCio. Com performance inspirada na arte tropicalista de Hélio Oiticica, provocou, logo na chegada, o maior sururu nos quiosques da Beira-Rio, numa noite pré-carnavalesca de fevereiro.
Trajando um “parangolatas” – paramento feito de latinhas de cerveja, baseado nos “parangolés” do artista revolucionário tropicalista -, Barrus percorreu o calçadão da Beira-Rio correndo, e chamando a atenção de curiosos. Como os inusitados parangolés quando foram lançados em 1968, no auge da ditadura, os “parangolatas” também viraram caso de polícia.
Uma senhora concessionária de um dos quiosques, vendo no artista um ser de outro planeta, acionou a PM. Os policiais chegaram armados, inclusive com coletes à prova de balas. Edson Barrus, impávido e sereno de dentro de seu smoking de latas de alumínio, mirava os repressores com o seu olhar cínico. Mas antes que os PMs radicalizassem, o professor e artista fotográfico Artur Leandro, que também incorpora o movimento, protestou: “A polícia vem pra prender o artista, enquanto o bandido corre solto!”.
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Nota publicada no PONTO G da revista Vanguarda – edição 07 – março/2004.
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O show-manifesto TROPICÁLIA NA LINHA DO EQUADORcom Aroldo Pedrosa e a banda Vanguarda – vai acontecer quinta-feira, 27, no SESC Centro. Venha!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

GILBERTO GIL VICE-PRESIDENTE DO BRASIL!


GIL DIZ QUE PODE SER VICE NA CHAPA DE MARINA EM 2010
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O cantor e compositor Gilberto Gil disse anteontem no Rio, que, se convidado, pode aceitar ser vice na eventual candidatura de Marina Silva (PT-AC) à Presidência pelo PV.
"Uai! Claro que existe possibilidade de dizer sim. Existe possibilidade de dizer não, existe possibilidade de tudo. Mas só quero dizer a ela, se ela me convidar", disse o ex-ministro da Cultura, durante aula magna aos alunos da Universidade Estácio de Sá, no Rio.
Segundo ele, os dois conversaram por telefone sobre a candidatura da senadora há cerca de uma semana. "Ela quer conversar comigo. Quer falar sobre candidatura, sobre o partido, sobre o PV, a transferência dela para o PV, sobre ela ser candidata propriamente", disse.
E completou: "Convite dela não houve. Se houver um convite, prefiro dizer a ela se eu quero ou não". Eles devem se encontrar pessoalmente, segundo o músico, que disse ainda ter "muita vontade" de conversar com ela sobre a disputa.
Para o músico, Marina é "uma pessoa muito importante para toda essa coisa da renovação da vida política brasileira". E completou: "Traz uma postura muito contributiva para o desenvolvimento da vida política no Brasil. Se ela se candidatar, vai ser muito interessante".
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Reportagem extraída do blog do Noblat

terça-feira, 18 de agosto de 2009

ALDEIA SESC AMAPÁ

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A partir desta sexta-feira, 21 de agosto, indo até o dia 28, todas as tribos do meio do mundo vão se encontrar no IV ALDEIA SESC - Povos da Floresta. E o NAVEGANDO NA VANGUARDA vai estar presente com a nossa trupe no show-manifesto Tropicália na Linha do Equador. Portanto, prepare-se!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O KARAOKÊ SINTONIA DE DOMINGO

O gaúcho Carlos e a amapaense Bianca Castro em boa sintonia com a MPB

O pequeno Amon com o pai-músico Guido e o amiguinho Glauber Caetano
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Sérgio Sales e Aroldo Pedrosa mandando "Você é linda", de Caetano Veloso
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A atriz Rosa Rente e o nosso menino bonito - de peixinho - Glauber Caetano
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Carlos se rendendo à boa rede preguiçosa amazônica
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Tell, Pedrosa, Poena e Lulih num papo-cultural
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Os compositores/cantores Sérgio Sales e Nonato Santos mandando "Gata Arisca"
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O prato da feijoada respeitada de Dona Luzia (a mãezona ao fundo)
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O casal rubronegro e apaixonado por MPB Evandro Santos e Cléia
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O anfitrião Tell e Pedrosa em "Samba da Bênção", de Vinicius e Baden

SINTONIA E FEIJOADA NO ESPAÇO ABERTO

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Aos poucos o projeto Sintonia, do compositor/cantor Christian Tell, vai conquistando adeptos. É o que vem acontecendo aos domingos no ESPAÇO ABERTO - avenida Tupis esquina com a Jovino Dinoá, próximo ao SESC Araxá. Nos dois últimos domingos, Christian Tell reuniu ali gente da cultura e da comunicação numa apetitosa feijoada - e respeite o prato! - produzida pelas mãos caprichosas de Dona Luzia - a mãezona do projeto Sintonia.
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No último domingo, principalmente, a feijoada, pelo precinho camarada de R$ 5,00, foi servida regada de muita música popular brasileira - é o Karaokê do Sintonia. Ou seja, um banquinho, um violão... e quem tiver talento musical - não precisa necessariamente ser artista profissional - é chegar na maior descontração e fazer o show, com a regência do anfitrião Tell.
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Acompanhe a seguir o registro fotográfico da ótima última tarde ensolarada de domingo no ESPAÇO ABERTO.
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Na foto acima, em destaque, a canja da jornalista e apresentadora Bianca Castro.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

XÔ, SATANÁS!


PERTO DEMAIS DE DEUS
Chico César
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Tem gente perto demais de Deus
Tem gente que não deixa Deus sozinho
E diz Deus ilumine seu caminho
E guarda Deus na cristaleira
Cristo perto dos cristais
Cristo assim perto demais
Cristo já é um de nós
Carne e osso pão e vinho
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Tem gente que não deixa Deus em paz
Tem gente incapaz de viver sem Deus
E o trata como um funcionário seu
Deus me livre, Deus me guarde, Deus me faça a feira
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Cristo dentro da carteira
Dez por cento rei dos reis
Cristo um conto de réis
O garçom não a videira
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Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno
Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno
Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno
Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno
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Esta obra-prima do compositor paraibano Chico César, vai estar no repertório do show TROPICÁLIA NA LINHA DO EQUADOR que se realizará no próximo dia 27 (quinta-feira), no SESC Centro.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

TIGRESAS PORTUGUESAS COM CERTEZA


Elas são portuguesas e foram fotografadas no coração de nossa floresta pelo Jorge Vismara - fotógrafo baiano radicado em Los Angeles (Estados Unidos). Vismara veio ao Amapá através do projeto Navegar Amazônia, que já não existe mais por entre a gente (o projeto). Elas, acadêmicas de uma Faculdade particular de Lisboa, vieram num intercâmbio da instituição de ensino de lá com a Universidade Federal do Amapá (Unifap) daqui, e ao conhecerem o Navegar Amazônia se deslumbraram... embarcando com mais oito outras colegas - e também muito lindas - portuguesas, numa expedição à Serraria Pequeno – localidade pertencente ao município paraense de Afuá. Eu fazia parte do Navegar Amazônia, era agente cultural e assessor de imprensa do projeto. A loirinha aí do biquinho bonito – Mariana, a gracinha! –, quando foi à Portugal passar o Natal com a família, me trouxe um livro espetacular da poeta Florbella Espanca que me emocionou muitíssimo! Presenteou-me o livro e nunca mais nos falamos, porque ela, logo em seguida, foi embora. Mas é presença viva em minha memória a viagem em meio há tantas mulheres encantadoras e cultas. Elas conheciam a literatura brasileira e, sobretudo, a nossa música popular. Durante a viagem cantei muito pra elas, do Caetano, Os Argonautas: Navegar é preciso/ Viver não é preciso... E, principalmente, o verso palpitante vampiresco “do meu dente em tua veia”. Escrevi muito sobre elas, sobre a troca de conhecimentos e as descobertas pelas linhas e curvas dos rios da Amazônia. Os textos, sempre cheio de graça, foram todos postados no site do projeto na coluna denominada Diário de Bordo, que, pelo que me parece, foi deletado de lá depois que transferiram “o barco da poesia concretizada” para São Paulo. O Navegar Amazônia hoje navega pelo rio Tietê. Deveria mudar de nome. Mas, voltando as tigresas lusitanas...
O sotaque delas soltando despretensiosamente palavras típicas do vocabulário do meio do mundo ao vento me soam cada vez mais saudosista. Ouvindo Menina da Ria no novo disco do Caetano e revendo a fotografia do Vismara com as felinas portuguesas e os passarinhos amazônicos, nossa... dá vontade até de esquecer os escândalos do Sarney pra sempre e deixar que me tenham (tô nem aí...) como o mais novo e entusiasmante bunda-mole dos trópicos!

CONFRARIA TUCUJU É CULTURA

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Com a notícia da volta dos projetos culturais da Confraria Tucuju ao Largo dos Inocentes, não dá pra ficar sem mencionar que a instituição mereceu, durante todo o segundo semestre do ano de 2008, aplausos de público e crítica pelos caprichosos e envolventes eventos realizados ali onde começou a nossa querida Macapá. A Confraria Tucuju tem à frente de sua diretoria a competentíssima doutora Telma Duarte – amapaense da gema – que sempre soube realizar grandes projetos e honrar o nome da instituição cuja graça adjetivada homenageia nossos ancestrais. Em 27 de novembro de 2008, pelos inestimáveis serviços prestados à coletividade e, sobretudo, a cultura amapaense, a Confraria Tucuju foi contemplada com o nosso troféu Vanguarda. A entrega da premiação aconteceu no Réveillon do Bar do Abreu e com a presença do compositor/cantor e escritor carioca Jorge Mautner. O produtor cultural Zezinho – irmão da diretora e membro da instituição – foi quem a representou. A Confraria Tucuju e mais nove instituições, que também se destacaram com projetos culturais em 2008, foram reconhecidas e homenageadas com o nosso troféu. E a prova de que soubemos escolher os vencedores está exatamente na Confraria Tucuju ter suas contas do ano passado aprovadas recentemente, por isso, naturalmente, está de volta com os seus projetos que têm objetivo de promover a cultura local e alegrar as famílias que vão se reunir de novo, a partir desta sexta-feira (14), no Largo dos Inocentes. Daqui o nosso axé e abraço afetuoso à doutora Telma e a todos da Confraria Tucuju, garantindo, desde já, que vamos estar sempre presentes, no Largo, para apoiar e divulgar os projetos culturais.

CONCERTOS DE VERÃO DE VOLTA AO LARGO


Márcia Corrêa
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A Confraria Tucuju traz de volta sua programação de música instrumental com o primeiro Concerto de Verão de 2009. O projeto reestréia em grande estilo na próxima sexta-feira (14), às 20 horas no Largo dos Inocentes, com apresentação do pianista amapaense radicado no Ceará, Aimoré Batista. Os concertos instrumentais da Confraria Tucuju marcaram o verão de 2008 com apresentações ao ar livre, trazendo ao público o talento dos músicos do Amapá.
“Nossa intenção é proporcionar aos artistas espaço para divulgarem seus trabalhos e ao público a oportunidade de conhecer a música instrumental executada no Amapá. Para isso fazemos um trabalho de formação de platéia, disponibilizando para as pessoas que se encantam com as apresentações, informações sobre as músicas, os instrumentos, os compositores e os artistas”, explica a presidente da Confraria, Telma Duarte.
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Aimoré Batista (Aimorezinho)
É músico pianista, violonista, escaletista e acordeonista, além de compositor, arranjador e produtor musical. Nasceu em Macapá no ano de 1947 e iniciou seus estudos musicais aos 8 anos no Conservatório Amapaense de Música. Optando pela música popular, tornou-se aluno do Mestre Oscar Santos, com quem estudou acordeom pelo método Mário Mascarenhas. A partir dos 10 anos já se apresentava em shows, dividindo palco com artistas conhecidos da época como Pedro Celestino – irmão de Vicente Celestino –, Ari Lobo, Zé Trindade entre outros.
Integrou grupos musicais em Macapá como Os Magos do Ritmo, Os Mocambos e Regional da Rádio Difusora de Macapá. Nesse período tocou com Amilar Brenha, Nonato Leal, Hernani Vítor e Sebastião Mont’Alverne. Aos 13 anos mudou-se para Belém onde integrou o conjunto musical Os Mocorongos, em parceria com o violonista Sebastião Tapajós e, posteriormente, integrou por longo período o Conjunto Sayonara.
Conhecido no meio musical como Aimorezinho, aos 17 anos o músico voltou para Macapá onde passou a integrar o conjunto Os Cometas. Três anos depois, aos 20 de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro e foi viver o fervilhar da noite carioca no auge da Bossa Nova. Tocando nos bares mais famosos conviveu com artistas consagrados como Wilson Simonal, Waleska e Miltinho. A partir de 1983 passou a residir em Fortaleza/CE, onde vive até hoje.
O artista tem dois CDs na sua discografia: Aimoré, Piano ao Vivo, gravado no Café Aymoré, em Macapá, idealizado e produzido pelo radialista Edvar Mota em 2003 e É Natal, produção independente de músicas natalinas de autoria própria e de domínio público, lançado em 2008. Mais quatro trabalhos estão em fase de elaboração, um CD com músicas infantis, um dedicado aos nubentes, um terceiro voltado para clientes de restaurantes, hotéis, agências de viagem e empresas, e ainda o CD É Natal versão 2009.
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Serviço
Concertos de Verão 2009
Com o pianista Aimoré Batista
Dia 14 de agosto (sexta-feira)
Às 20 horas
No Largo dos Inocentes
Realização: Confraria Tucuju

OLHA O ESPELHO CRISTALINO...


...QUE A HELOISA ME MANDOU DE MACEIÓ!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

ARTIGOS EXTRAORDINÁRIOS


SARNEY E EU
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Obrigado Sarney, só você para tirar as minhas dúvidas e me mostrar o mundo real por trás das ilusões. Sarney, nós somos duas faces da mesma moeda. Somos Yin e Yang. Nós somos os pilares deste país, um não existiria sem o outro. A sua cara de pau só existe porque do outro lado está a minha babaquice.
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Adelécio Freitas (um BMB legítimo)
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Algumas semanas atrás recebi um email sobre uma manifestação na frente do Congresso Nacional pedindo "Fora Sarney", na hora fiquei bastante animado, encaminhei o email para toda a minha lista de contatos e pensei que finalmente as pessoas iriam se indignar e reagir à tanta sujeira.
No dia da manifestação me bateu uma preguiça... após um longo dia de trabalho o cansaço me venceu, e afinal, quem iria sentir a minha falta?
No dia seguinte eu procurei eufórico nos sites de jornalismo sobre a tão falada manifestação que foi toda planejada em comunidades virtuais e bastante divulgada pelo twitter. Para a minha surpresa não existia nenhuma manchete, nem ao menos uma nota de rodapé. Resolvi entrar em uma das comunidades do orkut que organizaram a manifestação, e para a surpresa de todos, apenas cinqüenta pessoas se dispuseram a ir para a frente do Congresso.
Apenas 50 pessoas? Sendo que eu sozinho divulguei para mais de 1000? Que povo mais acomodado, pensei indignado, porque será que eles não foram?!....
Não demorou muito para a ficha cair. Eles não foram pelo mesmo motivo que eu não fui. Esperava que "alguém" iria no meu lugar.
Recostei-me na poltrona em frente à televisão e olhei para a janela do meu apartamento, que refletia a minha imagem. Fiquei olhando para mim e para a minha confortável inércia. Foi quando de súbito, eu tive a arrebatadora visão daquilo que sempre procurei e nunca encontrei, o meu verdadeiro papel na sociedade.
"Que bunda-mole!".
Finalmente, depois de tantos anos de crise existencial, pude perceber que eu era uma peça importante na sociedade, um legítimo Bunda-mole brasiliense (ou BMB).
Existem bunda-moles municipais e estaduais, mas eu tenho orgulho de dizer que sou um bunda-mole federal! Nas minhas viagens de férias sempre algum engraçadinho vinha falar: "De Brasília né.... já tem conta na Suíça?". Eu ficava indignado, falando que eu era um funcionário público concursado, que pagava os meus impostos, enquanto o povo que roubava vinha de fora e blá blá blá. Mas agora eu vejo com nitidez que eu tenho um papel importante nesse cenário. Eu como um legítimo BMB ajudei a criar esta barreira de proteção que mantém os verdadeiros FDP livres para fazerem o que bem entenderem.
Eu acho que as coisas estão bem do jeito que estão. Tenho dinheiro todo mês para pagar a prestação do meu carro 1.0 e do meu apartamento de dois quartos, freqüento uma academia para queimar o meu excesso de ociosidade, tenho meu smart phone comprado na feira do Paraguai, e no final do ano ainda vou ficar um mês em uma casa de praia alugada junto com a minha família para a incrível experiência de assarmos como batatas na areia... Mais BMB impossível!
Nas sextas-feiras, eu me sento com os meus amigos em um barzinho e depois do terceiro copo de cerveja soltamos toda a nossa indignação contra a patifaria que rola solta em Brasília, cada um conta um caso de um amigo próximo que enriqueceu da noite para o dia às custas do dinheiro público (o difícil é disfarçar aquela pontinha de admiração pelo "ixperto"). Depois traçamos os planos para endireitar o país. Planos que vão embora pelo ralo do mictório antes de pagar a conta. BMB de carteirinha!
Os anos passam e as conversas vão mudando: PC Farias, anões do orçamento, precatórios, privatizações, dólar na cueca, mensalão, sanguessugas, vampiros, Lulinha Gamecorp, Daniel Dantas, o dono do castelo, Petrobrás, e agora a cereja do bolo, ele, o único, o inigualável Sarney! Sarney é como um ícone do atraso nacional (clientelismo, fisiologismo, nepotismo, coronelismo, apropriação da máquina pública, desvio de verbas públicas etc), mas o que seria do Sarney sem a legitimidade dos BMB's? O que seria da ilha da fantasia, dos cabides de emprego, dos lobistas, do QI (quem indicou), dos cargos de confiança, dos funcionários fantasmas, dos atos secretos sem a nossa apática presença?
Imaginem se no nosso lugar estivessem aqueles sul-coreanos malucos que iam para a rua protestar partindo pra cima da polícia, ou aqueles jovens em Seattle que furavam um forte esquema de segurança da OMC para protestarem contra a globalização.
O BMB precisa ter o seu papel reconhecido, somos nós que deixamos tudo correr frouxo, somos nós que damos uma cara de democracia a este coronelismo em que vivemos. O nosso poder aquisitivo acima da média nacional protege o Congresso e os palácios da miséria e da violência que fervilham em nosso entorno.
Bunda-moles: Vamos exigir os nossos direitos! Precisamos finalmente mostrar a nossa cara. Nunca antes na história deste país o bundamolismo foi tão grande. Seja ele de centro, de esquerda ou de direita. Bundamolismo no movimento estudantil chapa-branca, nos sindicatos que só vão para a frente do Congresso para pedir aumento e nos artistas que se acomodaram no conforto dos patrocínios oficiais.
Vamos exigir que se crie em Brasília o museu do bundamolismo nacional na esplanada dos ministérios, uma enorme bunda branca de concreto, que irá combinar muito bem com a arquitetura de Niemeyer.
Assistimos de nossas poltronas o Brasil tomar o rumo da mediocridade, sem um projeto à altura do seu papel de grande potência ambiental do planeta, que pode liderar a nova economia limpa e inclusiva que irá gerar milhões de empregos. Mas que faz o contrário, age como a eterna colônia de exportação de matéria-primas, fazendo vista grossa para o colosso chinês que irá nos engolir com a sua máquina movida à destruição ambiental e desrespeito aos direitos humanos, para criar uma efêmera ilusão de prosperidade às custas de nossa biodiversidade e da nossa água doce (estes sim os nossos bens mais valiosos).
A bundamolização é muito mais eficaz do que o autoritarismo, ela pode ser eletrônica, através de novelas, videocassetadas, big brotheres e cultos picaretas. Pode ser química, com cerveja, maconha ou anti-depressivos. E também pode ser ideológica, com receitas milagrosas, e debates calorosos que sempre desaparecem em um clicar de mouse. Vivemos em uma sociedade anestesiada e chapada, sem rumo, imersa em ilusões baratas.
O bundamolismo nos une, não segrega ninguém, é a democracia verdadeira, que brilha por debaixo de uma crosta de hipocrisia e ignorância. E como toda ideologia que se preze, nós temos o nosso avatar, o nosso guru. Aquele que nos trás para a realidade e mostra quem realmente somos, revela o nosso eu profundo, a nossa essência.
Obrigado Sarney, só você para tirar as minhas dúvidas e me mostrar o mundo real por trás das ilusões. Sarney, nós somos duas faces da mesma moeda. Somos Yin e Yang. Nós somos os pilares deste país, um não existiria sem o outro. A sua cara de pau só existe porque do outro lado está a minha babaquice.
Bunda-moles de todo o país uni-vos!
Vamos celebrar a nossa mediocridade, vamos sair às ruas gritando: Viva Sarney! Viva Collor! Viva Maluf! Viva Roriz! Viva Gim Argello! Viva Renan Calheiros! Viva Romero Jucá! Viva o FHC! Viva Lula! Viva a República das bananas do Brasil!
Mas isso é pedir demais para um bunda-mole, vou voltar para a minha poltrona porque o Jornal Nacional já vai começar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

GRANDES ENTREVISTAS: FERNANDA TAKAI


FERNANDA TAKAI: "EU NASCI NA SERRA DO NAVIO"

Aroldo Pedrosa

A vocalista do Pato Fu, Fernanda Takai é amapaense e isso ninguém tasca! Embora vivendo na Belo Horizonte do Clube da Esquina há aproximadamente três décadas, quando lhe perguntam do seu lugar de origem, tem sempre a verdade absoluta na ponta da língua: “Eu nasci na Serra do Navio”. Casada com o músico, compositor e arranjador da banda, John Ulhoa, com quem tem a doce e pequena Nina, hoje, depois de alcançar os primeiros 15 anos de estrada e fama com o Pato Fu, a estrela do pop rock vive uma experiência nova na carreira ao gravar o trabalho solo Onde Brilhem Os Olhos Seus, com um repertório de canções fantásticas que ficaram marcadas para sempre na voz de Nara Leão. Foi o produtor Nelson Motta – ele faz a apresentação do disco – quem viu em Takai semelhanças surpreendentemente plausíveis com a musa da Bossa Nova. E sem saber sequer que as canções de Nara embalaram o sonho de Takai criança, quando ela ainda, entre duendes e fadas, morava na floresta.
Navegando pela internet num desses fins de semana prolongado, descobri Fernanda Takai na cidade paulista de Araraquara. Por e-mail, ela me contou um pouquinho de sua bela e envolvente história.

Vanguarda: Vamos começar pela história dos teus pais, que vieram trabalhar no Amapá por algum tempo.
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Fernanda Takai: O meu pai – já falecido – era geólogo, de São Paulo, e a minha mãe, enfermeira, alagoana de Maceió. O meu pai trabalhava com pesquisas iniciais de minério. Ao concluir as pesquisas, mudava-se sempre, por isso não ficamos por muito tempo no Amapá. Quando saímos da Serra do Navio, fomos pra Bahia e depois Minas Gerais.
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Vanguarda: Uma coisa curiosa que observamos daqui é essa atitude super-bacana de assumires ter nascido na Serra do Navio – embora tenhas saído de lá com dois anos apenas. Na revista BRAVO!, por exemplo, está escrito: “A amapaense Fernanda Takai”. Que espécie de sentimento é esse que – Por mais distante/ O errante navegante... – te remete lindamente ao teu estado de origem?
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Fernanda Takai: Eu tenho uma memória fotográfica muito forte da Serra do Navio. Meu pai costumava passar slides todos os fins de semana em casa e sempre havia muita coisa da Serra. Percebi que foi uma época muito feliz pros meus pais. Eles foram recém-formados pra trabalhar numa grande companhia mineradora, sem os parentes por perto. Fizeram boas amizades no Amapá e aí formaram essa nossa família. Talvez eu também me achasse uma estrangeira em todos os lugares que morei depois da Serra do Navio e fizesse questão de dizer como escrevi numa canção: "Olha, não sou daqui...". Hoje sou uma mineira honorária, gosto muito do Estado e represento a cena cultural de lá, mas quando me perguntam onde nasci, conto simplesmente a verdade.
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Vanguarda: E a relação com a música, Fernanda, começa a partir de quando?
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Fernanda Takai: O comecinho mesmo foi com o que os meus pais escutavam. Na época, eu me lembro, eles ouviam muito Nara Leão, Clara Nunes... E isso, claro, ajudou a amadurecer os meus ouvidos. Se os pais ouvem coisas boas, é natural que se tenha uma boa formação.
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Vanguarda: Quando o Pato Fu surgiu fizeram muitas comparações com Os Mutantes. A banda tropicalista exerceu influência sobre o trabalho de vocês no início da carreira?
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Fernanda Takai: Influência direta, não. Creio que tivemos algo meio parecido no final. Os Mutantes tinham essa coisa de fazer músicas muito diferentes, dentro de um mesmo disco, e de cantar em outras línguas. E isso é uma coisa que temos até hoje, de fazer músicas variadas em um disco só. Mas a nossa maior influência veio das bandas brasileiras e estrangeiras dos anos oitenta. Agora, ao sermos comparados a uma banda tão boa quanto Os Mutantes naquele início, pra nós foi um grande elogio. O que tentamos evitar, no entanto, era que os fãs dos Mutantes confundissem isso, de achar que gostaríamos de ser os novos Os Mutantes. Nunca tivemos essa pretensão. E, por uma virada do destino, hoje somos muito amigos do Arnaldo [Batista] e da Rita [Lee]. Eles gostam do nosso trabalho e reconhecem a identidade do Pato Fu no que fazemos.
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Vanguarda: Já estiveste – e eu estava no meio da multidão – com o Pato Fu se apresentando para o público amapaense, tendo como cenário as muralhas da Fortaleza de São José de Macapá. Como foi a experiência de cantar e se encontrar, depois de mais de trinta anos, no lugar onde de fato nasceste?
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Fernanda Takai: Foi emocionante porque o público e a organização do evento pareciam muito felizes em me ter ali. Eu também me senti realizada em poder voltar ao estado onde nasci de uma forma tão prestigiosa e num lugar tão lindo. Quero voltar mais vezes. E quero ir a Serra do Navio, de preferência com a minha mãe pra me contar mais histórias de lá.
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Vanguarda: “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, permita-me: é uma delicada obra-prima contemporânea da canção brasileira! Cantar Nara Leão até então ninguém tinha ousado, e a tua interpretação em canções emblemáticas como “Diz que fui por aí”, “Odeon”, “Insensatez”, “Com açúcar, com afeto”, “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” e, sobretudo, “Lindonéia” – dos tropicalistas Caetano e Gil – é manifesto puro e inconteste de que o novo rigorosamente nem sempre precisa ser inédito. A propósito, além dos olhos teus e do eterno mutante Nelson Motta, de onde mais vieram esses raios?
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Fernanda Takai: Sem dúvida o trabalho de arranjos do John [Ulhoa] e do Lulu [Camargo] são primorosos. Eles construíram com muita elegância e bom gosto essa base musical para que eu pudesse ter espaço pra cantar e interpretar do meu jeito, um repertório tão conhecido. Nós três gravamos o álbum todo sozinhos. Não havia nem assistente de estúdio. John gravou e mixou tudo. Eu gravei todas as vozes e Lulu e John tocaram todos os instrumentos. Acho que encontramos uma forma muito leve de trabalhar. Isso tudo aconteceu nos intervalos das gravações do disco "Daqui Pro Futuro", do Pato Fu. Acho que “despretensão” é a palavra que mais acompanhou todo esse processo.
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Vanguarda: A Bossa Nova está completando 50 anos e a Tropicália 40 – em julho faz aniversário o disco-manifesto, onde Nara Leão gravou “Lindonéia”. “Onde Brilhem Os Olhos Seus” é homenagem também aos dois movimentos?
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Fernanda Takai: Quando a gente começou a fazer o disco, em dezembro de 2006, não tinha essa lembrança dos 50 anos da Bossa Nova e muito menos dos 40 anos da Tropicália. Foi uma grande coincidência. Talvez se tudo tivesse sido tão planejado assim, não teria a mesma fluidez. Digo que esse disco encontrou muitas portas abertas porque a gente o fez pela música, por Nara e pela possibilidade que havia do público me conhecer mais como intérprete, mesmo depois de 15 anos de carreira.
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Vanguarda:
Gilberto Gil esteve recentemente em Macapá como ministro da Cultura. Eu queria a tua opinião sobre o desempenho de Gil no Ministério da Cultura.
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Fernanda Takai: Sou muito fã do Gil, acho que ele é uma pessoa de caráter, extremamente talentoso e um homem de bem. Talvez seja ainda mais fã do artista do que do ministro, mas isso não diminui em nada a admiração que tenho por ele. Ocupar um cargo dessa magnitude por tanto tempo não é fácil. Há momentos em que algumas decisões são tomadas a favor de uma suposta coletividade que a gente não entende muito bem e nem sempre concorda com os processos. Mas eu fiquei feliz em ter alguém como ele representando a nossa cultura.
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Vanguarda: Nós temos um projeto, A Caravana da Vanguarda no Planeta Amapari, pra te trazer ao Amapá em breve, e, numa viagem de trem, entre curumins com a bunda exposta na janela, te levar até a Serra. E depois de chegar lá, com o auxílio de um bom guia Waiãpi, te apresentar o lugar belo e preciso onde nasceu uma estrela. Esse lugar tem ao redor a densa floresta serrana onde habita o Brilho de Fogo – o raríssimo beija-flor (descoberto pelo cientista-ambientalista Augusto Ruschi) que iluminou, no desfile da campeoníssima Beija-Flor de Nilópolis, o Sambódromo. O que me dizes, baby, dessa idéia? Topas?!
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Fernanda Takai: A idéia é ótima. Posso levar a minha mãe? E a minha filha Nina de 4 anos? Resta achar um intervalo na minha agenda este ano, que tem duas turnês em andamento, mais divulgação de livro, gravação de DVD, viagens a Portugal e Japão... Vamos tentar!
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Vanguarda: A nossa revista está de aniversário – são cinco anos. Tim-tim!
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Fernanda Takai: Kampai! Que venham muitos anos mais!

FERNANDA TAKAI NO “ALTAS HORAS”


Fernanda Takai esteve no programa Alta Horas de sábado (8) lançando novo CD e DVD solos, gravados ao vivo com as canções do disco sobre a Nara – Onde brilhem os olhos seus – e bônus de outros, como uma canção gravada pelo rei Roberto Carlos no tempo da Jovem Guarda. Com o trabalho solo anterior, Takai ganhou até disco de ouro – grande façanha para uma artista de música popular nesses novos tempos onde hoje qualquer canção pode ser baixada gratuitamente pela internet.
Com a volta de Fernanda Takai à mídia, é oportuno ler a entrevista que fiz com ela publicada na edição 12 de Vanguarda. O que ela disse no Alta Horas é verdade – Fernanda responde sim aos emails dos fãs, porque respondeu ao nosso. A seguir a entrevista com a simpática conterrânea e talentosa Fernanda Takai.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O MEU ENCONTRO COM CAETANO EM RECIFE

O Universo conspirou a favor, porque as coisas foram acontecendo naturalmente, em circunstâncias onde a música foi o principal pivô

Aroldo Pedrosa

Eu havia escrito letra sobre um patrimônio da cultura brasileira nordestina: Lia de Itamaracá – a compositora/cantora de cirandas que embalaram meus sonhos de juventude e inspiraram o nome de minha filha Ciranda, que, quando criança, dançava na floresta com leveza de fada. Esta ciranda quem me deu foi Lia/ Que mora na ilha de Itamaracá... Os sonhos, embalados especialmente por esses versos, eram como disse “de juventude” – Menino Deus/ Quando a flor do teu sexo/ Abrir as pétalas para o Universo... –, porque me levavam espetacularmente à ilha afrodisíaca de Lia. E a letra, já em pleno século 21, me veio assim nas asas dessas lembranças.
Muito depois, em 8 de junho de 2003, conheci a musa ao vir cantar no Amapá pelo projeto Sonora Brasil. Nos encontramos e contei a ela o que agora escrevo aos leitores de Vanguarda.
Mas, voltando a conspiração do Universo divino...
O músico e parceiro Matheus Farias pegou a letra de Lia e musicou. Fez um jazz sofisticadíssimo, e o Israel Cardoso – outro bom músico amapaense – criou o arranjo. Imediatamente inscrevi a canção no Festival de Música de Garanhuns, classificando-a. E fomos os três a cidade pernambucana onde nasceu o sanfoneiro Dominguinhos e o presidente Luís Inácio Lula da Silva.
O resultado do festival – pelo menos pra nossa música – não foi grande coisa. Em compensação a volta por Recife...
Caetano estava em turnê pelo Brasil com o show e se apresentando em Recife, justamente na noite de minha passagem por lá. Matheus e Israel, desinteressados, preferiram o retorno a Macapá.
Era 1º de maio de 2007.
Com pouca grana e pra não correr o risco de perder o show, hospedei-me estrategicamente numa pousada em frente ao Teatro Guararapes, quando, minutos antes do show, desabou sobre a cidade tremendo temporal. Fui socorrido por um transeunte que passava com um enorme guarda-chuva colorido me levando até a porta do teatro. Graças ao anjo alado, com asas de guarda-chuva, pude chegar no horário e ver Caetano cantar para uma platéia delirante “Não me arrependo”, “Minhas lágrimas”, “ Musa híbrida”, “Um sonho”, “O herói”, “Homem”, “Rocks”, “Odeio” – as canções minimalistas que estão no CD que deu nome ao show. Um Caetano grisalho mas mais menino do que nunca, meio roqueiro, acompanhado pelos jovens músicos Pedro Sá (guitarra), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo e teclados). De calça jeans, tênis, camisa pólo e jaqueta índigo blues desbotada, o doce bárbaro baiano sacudia o Guararapes, correndo de um lado a outro do palco, cantando o frevo “Chão da praça”, de Moraes Moreira e Fausto Nilo. Sambas, também, solados, no lugar do cavaquinho, pela guitarra elétrica de Pedro Sá. Canções do Transa – o ótimo disco do exílio londrino – que os meninos da banda são fãs e tão bem entrelaçadas com as composições da nova fase do artista. “Nine out of ten”, que tem na letra o verso “Caminhando pela rua Portobello ao som do reggae” – reduto e berço, em Londres 70, do ritmo jamaicano que veio a se espalhar pelo mundo –, Caetano dedicava aos músicos do disco Transa – Jards Macalé, Tutti Moreno, Áureo de Souza e à memória de Moacyr Albuquerque. Em seguida cantava “Um tom”, do disco Livro, feita em homenagem ao filho caçula Tom, nascido na mesma data do maestro soberano Antonio Carlos Jobim. A canção era dedicada a outro grande maestro: Jacques Morelenbaum. No palco, Caetano, homem cordial, mais que artista e humano, com inveja apenas da longevidade e dos orgasmos múltiplos.
De repente num banquinho mandou ver o clássico “A voz do violão” (Francisco Alves/ Horácio Campos) em resposta a alguém que escrevera para o blog do jornalista Jorge Bastos Moreno, comentando entrevista polêmica do compositor publicada ali: “Vocês todos tem razão, ninguém agüenta mais ouvir Caetano Veloso falando sobre tudo. Mas o pior é ter que agüentar ele tocando violão”. A citação, em ipsis litteris, arrancou aplausos e risos da platéia.
E o show terminou com Caetano cantando a saudosista “Descobri que sou um anjo”, de Jorge Ben. As palavras meio que faladas no timbre super-bacana do cantor:

Não, comigo não
Comigo nunca mais
Mantenha a distância quando eu voltar
Pois na minha ida
O meu caminho era todo de pedras e espinhos
Mas na minha volta
Ele vai ser todo de estrelas e rosas...

Enfim, duas horas de música popular brasileira contemporânea da melhor qualidade. Um show e tanto!
Terminado o espetáculo, procurei o caminho que me levasse ao camarim do teatro. Havia muitas pessoas ávidas por uma palavrinha ou uma fotografia ao lado do ídolo. Vi quarentões, cinqüentões, sessentões e adolescentes se derramando nos braços do amado e idolatrado artista. Esperei por todo mundo e, quando não havia mais ninguém, me aproximei e cumprimentei Caetano. Falei de Macapá, do Navegar Amazônia e da revista Vanguarda que estava de aniversário naquela noite. Levei comigo as três últimas edições, com as quais presenteei Caetano. Ele ficou impressionado com a imagem da Maracatu da Favela na capa da edição nº 11 e disse saber do Navegar Amazônia pelo Jorge Mautner. Falei que fui agente cultural do projeto e que na expedição de Abaetetuba estivera com Mautner. Revelei ainda o sonho de entrevistá-lo para a revista, perguntando-lhe se seria possível. Caetano disse que sim. Apresentou-me o produtor Franklin que, imediatamente, me passou telefone e e-mail para contato. Agradecido pela atenção, deixei o camarim numa felicidade de quem marcou o gol mais lindo do mundo em partida final de campeonato.
Foi assim o meu encontro, em Recife, com esse homem cordial e genial chamado Caetano Veloso.
Acreditava que o ciclo havia se encerrado ali, que o movimento aliado dos astros tinha cumprido o seu ofício. Que nada! A viagem de volta me trouxe no mesmo vôo em que viajava o músico Pedro Sá – Caetano tinha show em Belém no dia seguinte...

Esta crônica é também em homenagem ao pequeno João Pedro - filho de minha filha querida Ciranda - que faz três aninhos hoje. Beijos no nosso Leãozinho!

LETRA DE MÚSICA


SUPER-HOMEM - A CANÇÃO
Gilberto Gil

Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É a que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Super-Homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher

Em tempo: A canção, também gravada por Caetano, estará no repertório do show acústico A MPB na Ponta dos Dedos e Língua, que farei brevemente em Macapá.