segunda-feira, 21 de setembro de 2009

SOU ANA


Aroldo Pedrosa
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Muito bom o show de lançamento do CD de Ana Martel no Teatro das Bacabeiras, quinta-feira (18) – a noite realmente foi de Ana –, com convidados como o acreano Sérgio Souto (compositor de Albatroz – canção lindíssima que, sinceramente, não sei por que não tem esse título), Joãozinho Gomes e Enrico di Miceli, Patrícia Bastos e Zé Miguel. Ainda não tinha ouvido o CD, que tem ótimo design com título em manuscrito – Sou Ana –, o cenário do show acompanhando também o visual do disco foi criativo.
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Ouço o CD agora, à medida que digito essas palavras, nas primeiras horas desta sexta-feira clara – o relógio do computador acusa 6h30 da manhã. E é bom demais ouvir Ana ao amanhecer, porque ela tem claridade e suavidade na voz. Quando a manhã madrugava/ Calma, alta, clara... Ouvindo Ana, os versos da canção tropicalista Clara, de Caetano, naturalmente vêm. E os de Joyce – Clareana – também.
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No palco, a "sussuarana" tem estilo porque é mulher bonita e carismática que se move com elegância a cada sílaba cantada, a cada verso que flui de sua voz... Adjetivos, enfim, não faltam para definir o talento dessa ave canora da floresta que canta com encanto a nossa aldeia – e, no entanto, é preciso cantar – e tem luz própria e brilho cintilante de estrela. E Ana, como se não bastasse, é também compositora. Como disse o Joãozinho Gomes: “E das boas, que vem juntar-se ao nosso time”.
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Ana faz muito bem em pôr no repertório canções de compositores consagrados como Gilberto Gil e Caetano Veloso, e que ela interpreta com muita personalidade, relembrando o começo de tudo, quando cantava pelos bares da vida. Não existe música popular amapaense ou paraense ou paulistana ou matogrossense ou pernambucana ou sei lá mais o quê – é um grande equívoco essa coisa de “artista da terra”, pra não dizer “minhoca”, que é extremamente pejorativo – porque um bando de babacas, inclusive daqui mesmo, tratou de rotular assim a música regional. Já discuti com muitos deles, que não é por aí... O Amapá não é um país, somos, sim, parte do Brasil da Bossa Nova, da Jovem Guarda, da Tropicália, da Vanguarda Paulista, do Mangue Beat e... Evoé, jovens à vista! É “Música Popular Brasileira (MPB)”, portanto com os mais distintos sotaques e cores e tons, e muito mais abrangente, porque somos um povo miscigenado e falamos a mesma flor-do-lácio de Luiz Vaz de Camões – Minha pátria é minha língua/ Fala Mangueira... Como Ana e como foi no show de quinta-feira, interpretando a canção do Gil – "Amor até o fim", linda!, gravada pela eterna Elis –, assim como Podres Poderes, de Caetano. Aliás, nada mais pertinente para descrever o “Brasil da pilantragem do século 21”, o qual estamos todos mergulhados e nos envergonha tanto. Lá na poltrona do Teatro, ao lado de minha mulher Rosa Rente e o meu filhinho bonito Glauber Caetano, que adormecera na leveza da arte de Ana – feito o poema do Drummond: Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças –, cantei com ela (e adorei): Enquanto os homens exercem seus podres poderes/ Morrer e matar de fome de raiva e de sede/ São tantas vezes gestos naturais... E com toda a indignação do mundo. Obrigado, Ana, pela terapia! Olha o mano Caetano aí de novo: Eu sou mais eu/Porque sou (também) você...
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Como numa outra canção do Gil, daquele mesmo disco capa branca da extraordinária e inesquecível Elis: O compositor me disse/ Que eu cantasse distraidamente esta canção/ E que eu parasse assim, aqui...
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A propósito, vou parar mesmo por aqui, assim. Mas, Ana, quer saber?... O compositor não precisa lhe dizer mais nada, não!

3 comentários:

Ana disse...

Você Aroldo, compositor/poeta de mão cheia, tem o dom de escrever comovendo. .. Essa é a minha humilde avaliação do que é um artista: um ser que tem o dom de comover e ensina como(vi)ver... como você através das palavras! E isso indepedende, como você disse, de quem é a música, do Gil, Caetano ou Aroldo ou Paul McCartney. Contento-me em cantar, pois meu coração não olha os créditos! Grande Beijo!!

nai ara disse...

foi lindo.

tudo bem que eu sou do ninho e suspeitíssima... mas também vibrei com os versos de "podres poderes".

sim, os tambores denunciavam de onde vinha aquela voz. Mas acredito, assim como você, que é uma voz agora universal, como deveria ser em toda música brasileira: em uníssono, sem rótulos; apenas boa.


não conhecia seu blog... amei o texto, sobretudo o tema =)

p.s. : o nome da música do gilberto gil q ela cantou é "amor até o fim"; é a que mais gosto de vê-la cantar *-*

Aroldo Pedrosa disse...

Obrigado, Ana... E que bom que você gostou! Pretendo escrever mais, inclusive no jornal O ESTADO, que estou agora com duas páginas, e na revista Vanguarda, que sai na primeira quinzena de outubro.
E a Naiara me passa o título da canção do Gil: "Amor até o fim". Amor, não tem que se acabar/ Até o fim da minha vida/ Eu vou te amar... Essa canção é maravilhosa, como tudo o que o Gil faz. E cantada por Ana como foi, melhor ainda... Obrigados, seja bem-vindas ao Navegando na Vanguarda!